Ano Letivo

2009/2010

Unidade Curricular

Laboratório de Urbanística

Ano Curricular


Docência

Vincenzo Riso, Ana Lopes

Título do Exercício

Mecanismos de transformação

Lugar de Intervenção

Terrenos em espera entre o Alto da Bandeira e o Parque Industrial da Barca, Vila das Aves

Enunciado do Exercício

Neste exercício propõe-se formular um projeto de intervenção para uma área preponderantemente ocupada por indústrias. Esta área está situada entre o Alto da Bandeira e o Parque Industrial da Barca, Vila das Aves. Trata-se de considerar o lugar como se os edifícios industriais deixassem de existir e o terreno ficasse com os vestígios da sua antiga ocupação e, portanto, encarar o projeto enquanto mecanismo de transformação de uma área que mais tarde ou mais cedo precisará de ser regenerada.

Pretende-se que os trabalhos investiguem um processo de regeneração do sítio. Prescinde-se dos edifícios por escolha didática; esta é uma hipótese de trabalho que também poderá fazer sentido para a reconversão de antigas áreas industriais, em processo de abandono progressivo.

Trata-se, neste exercício, de investigar novas possibilidades de construção de um conjunto habitacional organizado em forma de tecido urbano e pontuado pela inserção de equipamentos, ou outras funções coletivas, como comércio, ou mesmo serviços. Reafirma-se que é na exploração da articulação entre tipologia e morfologia que se define uma hipótese de tecido.

Paisagem

João Pedro Silva, Ana Rita Pereira, Rita Santos e Luís Esteves

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lnterval is to do with our deepest feelings … those concerning territory. Without interval, our sense gets lost; we lack the space to mark out what is still our self, our territory. Those tiny physical marks of paw print, smell, know noises, know light patterns, know safe places, known places of enjoyable risk.

ln those places for specialised human behaviour- for example absorbing the flavour of

the meaning of pictures in National Gallery – the more critical the control of interval becomes. It is not that the closer music comes to reaching our deepest levels of feeling, the more precise its notation of interval?1

 

 

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Casa Vanna Venturi, Chestnut Hill, Pensilvania, 1962- O vazio orquestrando a composição

 

 

Um gesto urbanístico necessita de subtileza, do entendimento de todas as partes constituintes do território na criação de uma proposta sensível, inteligível de todas as marcas que desenham a paisagem.

 

Como afirmara Álvaro Siza “A ideia está no sítio” e a génese da metodologia projectual também.

 

Esta conceção também está presente no Manifesto de Doam de 1954 dos Team X que serão mais uma vez referenciados, pois “para compreender o padrão das associações humanas devemos considerar cada comunidade no seu particular ambiente ou contexto.”

 

Ao longo da unidade curricular o entendimento de todos os estímulos provenientes do lugar foram treinando a perspicácia dos nossos olhares, que se foram tornando mais criteriosos e atentos, e revelando a incúria que se comete no contexto onde estamos inseridos e, principalmente, no tão mitigado território do Vale do Ave. Contudo, embora a tão evidente escassez de “boa forma” urbana, podemos observar que tudo se poderia tornar num motivo de aprendizagem, já que uma das melhores formas de como bem intervir é revogando os exemplos do que evidentemente é uma atitude insurreta e desajustada. Robert Venturi e Denise Scott Brown já haviam feito essa alegoria ao ordinário, principalmente em “Learning from Las Vegas”, como profundo plano de aprendizagem.

 

Um dos aspetos que, implicitamente, foi alvo de uma intensa análise foi o confronto, sempre intenso e por vezes indefinido, entre o público e privado. As suas fronteiras quase sempre relativizam, neste contexto, o espaço urbano para um plano secundário e de carácter sobrante e, por isso, no exercício que fora lançado necessariamente teria que ser discernível onde começa um e acaba outro e planear os espaços onde eles se encontram e tencionam. Por isso trabalhar estas transições e relações quase que asfixia o próprio tema do projeto “( … ) there must be a clear demarcation between what is public space and what is private space. Public and private spaces cannot ooze into each other as they do typically in suburban settings or in projects.”2

 

Outro dos elementos que se torna indissociável da resolução do exercício é a sua relação com a historiografia do local, na intelectualização desse passado e entendendo a proposta como apenas mais um passo na evolução da paisagem.

 

A situação atual ainda sofre os desígnios do modernismo, por isso esse movimento e os que lhe seguiram exerceram particular influência para o aspeto formal do plano urbanístico.

 

A situação atual ainda sofre os desígnios do modernismo, por isso esse movimento e os que lhe seguiram exerceram particular influência para o aspeto formal do plano urbanístico.

 

Além disso o Período Heróico da arquitetura moderna tinha como preceito essencial a continuidade espacial entre o interior e exterior algo que é transposto para o terreno.

 

O sítio onde se intervém parece repudiar-nos, claramente violentado pela necessidade e prazer do homem sublimar a natureza. O sítio é um intervalo, esquecido mesmo por quem o percorre, mesmo quando se o percorre. Caso não fosse interrompido pelo ruído da água quase não se percebia a existência daquele não-lugar, que no entanto é tão lugar como a paisagem que ele nos oferece de rompante. O silêncio também é necessário numa composição, mas necessita de ser controlado e dimensionado.

 

Assim após a visita ao local, pareceu-nos óbvio que o projeto deveria reabilitar essa fenda, esse corpo estranho, devolvendo-a de um modo vivenciado ao território. Portanto a paisagem é necessariamente o sujeito primário da intervenção, deixando de ser fundo neutro como é frequentemente encarada mesmo na envolvente próxima, sendo a validação do próprio desenho projetual.

 

Logo à partida, para evitar que a nossa abordagem caísse no erro do fragmentário, criamos imagens que sintetizassem os diversos trames visuais que tínhamos assimilado, algo que os Team X haviam feito em seu projeto Kennemerland.

 

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Team X, projecto para Kennemerland

 

Nesse projeto o grupo propunha o seu projeto com uma forte perceção identitária, ao adequar a escala ao perfil da aldeia histórica, preocupação que também está presente no nosso estudo pela altimetria das nossas tipologias adequadas à altura do muro de suporte.

 

Também chegam a afirmar que intervém nas zonas onde a paisagem tem pouco valor, sendo que esse pouco valor está sempre associado a uma desligação identitária.

 

O discurso que se tem apresentado enfatiza o papel da paisagem para o desenvolvimento do projeto. Por isso, e também influenciados pelo projeto para Lichterfeld Süd de Florian Beigel e Philipe Christou estabelecemos cinco níveis componentes da infraestrutura paisagística, que é a intervenção já desenvolvida que o nosso projeto agarrará: os muros de suporte, a linha de água, os trilhos de terra batida, valas e vegetação.

 

O gesto arquitetónico absorve, essencialmente, a preponderância dos muros de suporte para si, como se tivessem sido construídos para receber a intervenção proposta. Foram de facto construídos para a intervenção proposta. Por isso, refazendo a abordagem, construímos os muros de suporte para suster o terreno para nesse interstício edificar o projeto.

 

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Maqueta da proposta

 

 

O edifício que encerra mais a sul a proposta adquire os atributos do muro e tem a função de suportar a diferença de cotas, encerrar o espaço semi-público e filtrar e hierarquizar a visão longitudinal da paisagem que antes nos aparecia de modo imediato. Este edifício acede-se por galeria nos seus pisos superiores e voltado para o espaço semi-público, claramente com outro grau de privacidade e liberto do ruído que advém da rede viária. Este rede viária é remetida para um dos extremos, praticamente anexada ao muro de suporte, desta forma libertando o espaço central para um Parque Urbano, perfeitamente desvirtuado da rígida rua, que passa a memória eternizada por um corredor verde.

 

Este gesto, como pode ser observado, é rígido intra-muros de suporte, desfragmentando-se à medida que se afasta dessas linhas e se aproxima do urbanismo organicista e casuística do Vale do Ave. Esse núcleo que propomos adequa-se ao carácter fragmentário deste contexto, mas ao contrário dos lotes na envolvente de grande parcela, aqui eles aproximam-se e conformam espaço urbano comunitário de desenho controlado.

 

Pensamos as unidades habitacionais tal como Bakema as imaginou no seu Alexandre Polder como uma unidade que “não é só concebida como sócio-geográfica onde as pessoas se relacionam umas com as outras no tempo e no espaço, mais sobretudo é concebida como uma unidade espacial que pode ser experimentada e compreendida visualmente”.

 

Os silêncios aparecem agora definidos por terreno e plenamente confinados.

 

A assunção do Parque urbano é uma conceção modernista, e é acentuado pelas várias áreas ajardinadas que vão surgindo ao longo da proposta e que são unificadas por uma linha de árvores, que para além disso protegem os jardins privados das unidades habitacionais, embora elas já tenham um carácter privado por se elevaram e por estarem voltados para o interior da edificação. Esta linha de árvores também protege o espaço semi-público do percurso pedonal que se faz na exiguidade do muro de suporte.

 

 

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Definidos que estão as características essenciais e gerais da intervenção é requerido, de seguida, uma análise específica dos desenhos que assinalarão aspetos mais particulares que asseverarão a preocupação de definir o projeto desde uma escala territorial até uma escala mais aproximada da escala humana.

 

ESCALA 1:2000 e ESCALA 1:1000

COBERTURAS e 1:1000 PISO TÉRREO

 

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Tanta a escala 1 :2000 como a 1 :1000 das coberturas, por apresentarem a proposta de modo global, já foram sendo mencionadas e explicadas anteriormente. Na primeira, verifica-se como os volumes propostos se relacionam com a escala envolvente, especialmente a parte mais fragmentária que tende a se aproximar da escala das casas individuais, mas enquanto que as que propomos dão para 2/4 famílias, as restantes são apenas para uma família e mesmo assim necessitam de um grande espaço parcelar. Neste ponto podemos intuir que realmente não é criada uma vivência comunitária, ao contrário do que proporciona uma maior aproximação das unidades habitacionais e a criação à priori de um espaço de reunião.

 

Os volumes que fazem a transição da zona mais retilínea para o urbanismo mais fragmentário partem da cota do terreno. Apenas a cobertura do volume dos serviços é acessível, para não criar promiscuidade para os jardins privados. A colocação dessa acessibilidade permite que a leitura do muro se faça de forma desafogada como outrora.

 

 

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Na planta 1:1000 já se denota a marcação e diferenciação dos pavimentos. Existem dois percursos principais, que diferenciam o pedonal e ciclovia do viário, que têm a mesma dimensão, portanto o percurso viário nunca se sobrepõe ao pedestre. Do lado viário podemos observar dois percursos para peões, um adjacente ao muro de suporte que é contínuo e em terra batida, uma repercussão dos trilhos pré-existentes no local. O outro caminho para peões é interrompido, já que entra no espaço semi-público, ou seja, as pessoas que não possuem uma unidade habitacional vão preferir o percurso mais rápido que situa do outro lado da estrada, portanto esta subtileza permite ganhar uma maior privacidade para o espaço central que será privilegiadamente para os habitantes.

 

Quanto aos serviços é colocado nos momentos de transição entre as duas malhas e no espaço público central debaixo das galerias, portanto em pleno contacto com o pavimento desse espaço.

 

Os veículos têm um espaço defronte do corpo retilíneo para servir essas habitações e uma bolsa onde contém espaço para um maior número de veículos para servir o núcleo central.

 

A planta do piso térreo demonstra a relação dos jardins privados e a sua separação do acesso pedonal por intermédio da linha verde arbórea e de uma elevação em relação a esse caminho. Todas as habitações do piso térreo possuem um jardim exceto as que estão em contacto com o espaço público pavimentado central.

 

Na zona de cariz mais fragmentário as habitações têm contacto com o espaço público, sendo que o jardim se coloca na fachada contrária em contacto com o território. De assinalar que os habitantes podem a certa altura tornar o jardim maior, prolongando-o no terreno.

 

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Na planta 1:1000 do piso térreo existe uma subversão já que todas as habitações estão cortadas pelo seu piso térreo, para assim explicitar a relação de toda a proposta com o terreno adjacente.

 

No desenvolvimento das tipologias tentamos conferir-lhe uma certa variabilidade principalmente ao que ao skyline diz respeito, rasgando, nos volumes retilíneos, a sua afinidade à barra. Todas as tipologias têm uma propensão para uma construção faseada, que, tal como nos projetos de Beigel e Chistou pode ser construída conforme a circunstância financeira, embora infiramos uma condicionante, que as unidades habitacionais sejam construídas com uma distribuição equilibrada, ou seja, que não sejam construídos todos os volumes retilíneos sem que nenhuma unidade do urbanismo fragmentário esteja erigida.

 

 

CORTE/ALÇADO 1:500 TIPOLOGIA VOLTADA A ESTE

 

 

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Esta tipologia tem por base o apartamento da Unité d’Habitacion de Corbusier e a sua anexação vai dependendo do desnível do terreno. Os momentos de vazio constituem os acessos, que podem ser laterais ou mesmo verticalmente. Alguns apartamentos chegam a aproveitar a cobertura de outros para constituir um pátio da habitação. Os jardins constituem-se com a pendente do próprio terreno.

 

 

CORTE/ALÇADO 1:500 TIPOLOGIA VOLTADA A OESTE

 

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O braço retilíneo mais curto é constituído por módulos que se unem pelos acessos. Cada módulo é assim constituído por quatro apartamentos, exceto na zona pavimentada do espaço semi-público e a última habitação que é meio-módulo. As habitações do rés-do-chão, assim como a outra tipologia, são constituídas pelo jardim térreo privado.

 

Desde a rua existe uma transição do grau de privacidade sequenciada como podemos observar no seguinte esquema:

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CORTE 1:500 TIPOLOGIA FRAGMENTÁRIA

 

 

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Esta tipologia é constituída em constante confrontação com. o terreno e altura dos muros de suporte como se verifica no corte. Os únicos edifícios que se evidenciam nessa implantação são os serviços e os que fazem a transição do caminho com carácter mais público para um mais intimista.

A escada, pré-existência do território, é usada para vencer uma cota, e que através de um percurso adjacente ao muro serve as habitações de um plano elevado. Os restantes elementos que permitem vencer os desníveis vão sendo colocados em intervalos regulares sempre com pretensão de se relacionarem com outros elementos, como no seguinte exemplo.

 

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A escada está na continuidade do muro de suporte fazendo  a transição  entre dois espaços públicos

 

 

CORTES TRANSVERSAIS

 

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Nos cortes 1 :500 afere-se a adequação dos volumes ao perfil do vale, e como os edifícios contém no seu interior o espaço com o carácter semi-público.

Os cortes também evidenciam a variabilidade de pavimentos e os ligeiros desníveis que efetuam a separação do uso do caminho, especialmente no corte 1 :200. No percurso principal da direita, sem elemento viário, serve os pedestres e ciclovia. A diferenciação desses momentos é feita por um pequeno talude, que se lê na planta 1 :500 A.

 

A city’s very structure consists of mixture of uses, and we get closest to its structural

secrets when we deal with the conditions that generate diversity.3

 

Na corte à escala 1 :200 evidenciam-se, mais facilmente, todas essas transições.

 

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CONCLUSÃO

Depois deste exercício, depois da análise de diversos chãos, de diversas paisagens, e da ruralidade, que não é urbana e que não sabe se é a própria ruralidade, do contexto do Vale do Ave, assumimos que o mesmo contexto é infindável nas suas indagações e retóricas.

 

Uma possível conclusão arriscamos avançar:

Urbanística é o território compreensível, de legível identidade, de desenho claro que

dissolve ambiguidades.

 

Urbanística é o sítio.

 

 


1 SMITHSON, Alison and Peter, The Charged Void: Architecture, The Monacelli Press, New York 2001, pág. 454.

2 JACOBS, Jane, The Death and Life of Great American Cities, Penguin Books, England 1961. Pág. 45.

JACOBS, Jane, The Death and Life of Great American Cities, Penguin Books, England, 1961. Pág. 390.