Ano Letivo

2011/2012

Unidade Curricular

Laboratório de Urbanística

Ano Curricular


Docência

Cidália Ferreira da Silva, Vincenzo Riso

Título do Exercício

Ferramentas de interpretação/representação — Construir um olhar específico

Lugar de Intervenção

Vale do Cávado, Vila de Prado e Soutelo

Enunciado do Exercício

Este exercício propõe a reflexão sobre áreas inseridas no território do Vale do Cávado. Este território apresenta um modelo de urbanização distinto do modelo tradicional, associado às cidades consolidadas, sendo assim necessário treinar o olhar para o reconhecimento dos traços e pegadas que estes territórios apresentam, com o objetivo de inventar novas formas de intervir.

É fornecida uma amostra alargada do Vale do Cávado delimitada pela Vila de Prado e Soutelo, e pretende-se que o aluno crie uma interpretação que se funda num olhar específico; este olhar seleciona temas e/ou elementos, que por serem sistematicamente recorrentes em toda a extensão da amostra, se reconhecem como estruturantes no território e na paisagem resultante.

O mote para a criação da ideia-chave será dado com a seleção de uma fotografia, que o grupo considere exemplificativa da sua inquietação perante a área de estudo. Devem associar essa fotografia a um tema e/ou elemento reconhecido.

Passagens

Carla Lage, Tânia Sofia Silva, Marisa Fernandes e Ana Soares

Planta síntese

Planta síntese

 

PASSAGENS
Após uma visita ao terreno proposto para análise, observaram-se três elementos que captaram a atenção pela sua rudeza em contraste com a delicadeza e fluidez do rio. Esses elementos podem ter duas denominações: “pesqueira”, sendo este termo mais utilizado no Norte de Portugal, e “açude”, mais utilizado na região Sul.

Porém, depois de uma investigação e observação, foram encontradas mais 5 pesqueiras, que predominam no Rio Homem, e ainda um açude no Rio Cávado.

 

 

MAS QUAL A DIFERENÇA ENTRE PESQUEIRA E AÇUDE?

Ambos possuem a mesma função e são elementos artificias compostos por muros de pedra que servem para reter, elevar e desviar a água dos rios e conduzi-la, através da levada ao moinho. Por isto, a pesqueira ou o açude estão sempre a um nível mais elevado que o moinho, para que a água ganhe energia necessária para movimentar o rodízio.

A única diferença observada é no seu desenho e construção, possuindo o açude um carácter mais retilíneo, com pedras geometrizadas, levando-nos a pensar que provavelmente estas foram construídas mais recentemente, enquanto as pesqueiras são datadas da época medieval e são formadas por pedras informes dispostas de uma maneira mais aleatória, conformando um desenho mais orgânico.

Além da sua função associada à produção energética (em relação ao moinho e o seu funcionamento industrial), associamos também estas estruturas ao cultivo – podendo elas auxiliar a rega dos terrenos agrícolas – bem como ao atravessamento entre as duas margens. Atualmente, os moinhos já não se encontram em funcionamento, sendo que alguns foram adaptados pelos proprietários desses terrenos, e muitas das pesqueiras são agora um espaço de apropriação das pessoas como espaço de lazer.

Tendo isto como mote, procedeu-se a uma análise detalhada destas estruturas enquanto génese da organização do território, avaliando o seu impacto a nível territorial através das suas diversas relações com ambas as margens, quer aos níveis de cultivo e industrial, quer de percursos e direções de atravessamentos.

Presenciando a pesqueira, a primeira associação é imediatamente à retenção de águas, procedendo-se a uma observação mais atenta das parcelas a fim de emitir alguma conclusão acerca da sua localização. Outro reparo foi na existência do moinho, sendo que alguns dos elementos analisados não o possuíam e eram apenas compostos por um conjunto de pedras acumuladas no rio. Isto remete-nos para uma ideia de que estes elementos seriam apenas um momento de atravessamento ou então estariam associadas apenas ao cultivo. Além disto, denotou-se que as pesqueiras possuem diversos desenhos, contudo supusemos que estas poderiam ter tido o mesmo desenho e sofrido alterações ao longo dos séculos.

Sendo que estas estruturas são implantadas transversalmente ao rio, também os outros elementos de atravessamento deveriam ser estudados em paralelo – as pontes. Quando analisadas estas estruturas, observou-se que estas possuem eixos bastante notáveis. Estes tanto surgem perpendicularmente ao rio, conduzindo a grandes centros urbanos, como também ligam a percursos que acompanham o rio e fazem a “distribuição” ao longo da margem.

Definimos então três categorias:

— Pesqueiras associadas ao cultivo (relativas às pesqueiras sem moinho)
— Pesqueiras associadas a produção de energia (relativas às pesqueiras com moinho)
— Pontes associadas aos núcleos urbanos.

 

Além do estudo do parcelamento já referido acima, foram analisadas para todas as categorias as vias bem como os caminhos de menor escala de acesso a estas), a vegetação e a edificação. Foi necessário desenhar a amostra em análise a uma escala mais reduzida para perceber se essas relações viárias eram realmente só a um nível de proximidade ou se havia alguma rede que pudesse unificar alguns percursos.

Com esta divisão, que apenas foi uma referência e um modo de organização de todo o trabalho, pode agrupar-se também as conclusões retiradas para as respetivas categorias.

 

Imagens

Levantamento fotográfico

 

PESQUEIRAS ASSOCIADAS À PRODUÇÃO DE ENERGIA

Percebe-se uma intenção de continuidade da via com a pesqueira que, por sua vez, é desenhada pelo limite do parcelamento na outra margem. Por outro lado, há também casos em que é clara a continuação da via nas duas margens, dando estas acesso à pesqueira. Há também uma proximidade com as parcelas industriais, o que nos leva a supor que quando os moinhos se encontravam em funcionamento e a produzir energia para a moagem, era necessária a construção de armazéns para a acumulação do cereal.

No decorrer da análise desta categoria, reparamos numa situação particular que captou a nossa atenção para a continuação do trabalho. Ao perceber os alinhamentos das três últimas pesqueiras do rio Homem – Pesqueira de Covas, Pesqueira de Rendufe, Pesqueira da Malheira – reparamos que estas assumem um movimento direcionado para o Mosteiro de Santo André de Rendufe, que em tempos funcionou como abrigo dos Monges Beneditinos. Para além do Mosteiro e Convento, os monges eram ainda proprietários de uma outra casa mais perto do rio que funcionava como refúgio espiritual para estes. Assim sendo, e de acordo com a nossa análise do território, esta situação leva-nos a crer que a existência das pesqueiras poderá estar relacionada com movimentos religiosos, ou com algum tipo de peregrinação sazonal ao templo.

 

PESQUEIRAS ASSOCIADAS AO CULTIVO

Há também uma relação com a indústria dada a sua proximidade, bem como uma continuidade dada através de definição de parcelas ou linhas de árvores que nos poderá indiciar a existência de um caminho que nos conduz a vias principais, que por sua vez ligam aos núcleos urbanos.

Outro aspecto a salientar, é que por vezes só se consegue distinguir claramente as relações com uma só margem, sendo que na outra margem manifesta-se uma possível relação com grandes propriedades – uma delas que possui uma habitação datada do século XVI – que poderão ter exercido alterações no terreno.

 

PONTES ASSOCIADAS A CENTROS URBANOS

Dos três casos estudados – ponte da Vila do Prado, ponte do Bico e a ponte de Covas – compreende-se que há uma clara distinção entre elas, sendo o caso mais particular a ponte do Prado por se encontrar na margem Norte um maior volume de edificado e ocupação do território junto a esta estrutura. Isto deve-se ao facto de esta vila ser a mais antiga da região e ter sido ocupada em função da existência da referida estrutura, que é uma ponte romana datada do século I D.C, sendo um marco importante nos percursos das vias romanas.

Segundo a pesquisa realizada, crê-se que a população cresceu ao pé da ponte, e que até então não havia registo de que essa margem fosse habitada, pois era uma zona pantanosa e muito fria, em consequência dos ventos e degelos vindos da Serra do Gerês e trazidos pelo Rio Cávado e pelo Rio Homem.

Já nos outros dois casos, não verificamos isso, e como exemplo temos a Ponte do Bico que foi inaugurada em 1866, sendo, portanto, mais recente. Neste caso, esta não desenvolve uma malha regular à sua volta, nem assume uma forte ocupação do território. No entanto, estas pontes lançam três grandes eixos com visibilidade no desenho, que fazem a ligação a Vila Verde e a Amares, que podemos observar quando analisamos a amostra a uma escala reduzida.

A nível de expressão, optou-se por dar relevância ao tema do trabalho- Pesqueiras- bem como à sua envolvente mais próxima, uma vez que os grandes alinhamentos presentes se localizam afastados da área selecionada para análise.

Assim sendo, foram representados numa planta esquemática todos esses elementos de forma a perceber a sua expansão territorial, tendo sido adotado um sistema de representação muito uniforme e linear. Contrariamente, em estudos a escalas mais aproximadas, foi utilizado um outro tipo de expressão, este mais pormenorizado de forma a transmitir o levantamento do território efetuado ao longo do período de trabalho.

Era igualmente importante perceber a volumetria em corte vertical desses elementos principais para perceber as relações entre a pesqueira, profundidade e topografia. Esta última, mais evidenciada na maqueta, não apresenta na planta de síntese uma posição muito evidenciada, tendo o grupo dado primazia àquilo que são as relações físicas existentes não nos centrando na abstração das curvas de nível.

Através da realização de todos os estudos entendemos que as pesqueiras são marcos territoriais, que apesar de medievais são hoje em dia estruturas bastante presentes e apropriadas pelo Homem.

O tema Passagens engloba uma diversidade de significados, que vão sendo trabalhados ao longo de esquemas e desenhos. Esta dupla conotação está presente, por exemplo, na passagem do homem de uma margem para a outra, como na água que passa pelo moinho e faz mexer todo um sistema de moagem associado.

 

 nucleos urbanos - prado

Núcleos urbanos – Prado

 

 nucleos urbanos - bico

Núcleos urbanos – Bico

 

 

nucleos urbanos - covas

Núcleos urbanos – Covas

 

 

pesesqueira prado

Penesqueira – Prado

 

 

penesqueira bic

Penesqueira – Bico

 

 

penesqueira soutelo

Penesqueira – Soutelo

 

 

penesqueira rendufe

Penesqueira – Rendufe

 

 

penesqueira covas

Penesqueira – Covas

 

 

penesqueira malheira

Penesqueira – Malheira

 

 

cortes

Cortes

 

 

Processo 1

Folha do processo de trabalho

 

 

Processo 2

Folha do processo de trabalho